O Banco do Japão (BoJ) decidiu nesta quinta-feira (19) manter a taxa básica de juros em 0,75%, conforme esperado pelos mercados internacionais. A decisão foi tomada sob um placar de oito votos a um.
Apesar da manutenção dos juros, o Banco Central indicou que continua atento aos riscos inflacionários. Em comunicado, a instituição afirmou que o aumento recente dos preços do petróleo, associado ao conflito no Oriente Médio, pode ampliar as pressões sobre a inflação japonesa.
O presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, afirmou que a autoridade monetária passou a dar mais atenção aos riscos de alta da inflação do que aos possíveis impactos negativos do conflito sobre o crescimento econômico.
“Antes do conflito no Oriente Médio, a atividade das famílias e das empresas estava firme. As medidas de estímulo do governo provavelmente sustentarão a economia”, declarou em coletiva de imprensa.
Ele acrescentou: “Levaremos esses pontos em consideração ao determinar o grau em que o aumento dos preços do petróleo pode pesar sobre a economia por meio da piora dos termos de troca.”
Durante a coletiva, Ueda afirmou que o Banco do Japão não descarta elevar os juros em um horizonte próximo caso o impacto do petróleo sobre o crescimento econômico seja limitado.
Segundo ele, a autoridade monetária avaliará se a elevação do custo da energia representa apenas um choque temporário ou se pode comprometer o avanço da economia rumo à meta de inflação do banco central.
“Precisamos estar atentos ao fato de que os acontecimentos recentes ocorrem em um momento em que as empresas já estão aumentando ativamente os preços e os salários, o que sugere que elas poderiam repassar os custos de forma mais agressiva do que após a guerra na Ucrânia”, afirmou.
De acordo com o BoJ, a inflação deve cair temporariamente para abaixo de 2% antes de voltar a sofrer pressões de alta.
Segundo a autoridade monetária, esse movimento pode ocorrer porque o avanço recente do preço do petróleo tende a influenciar os custos de energia no país. Como o Japão depende fortemente da importação de combustíveis e energia, variações no mercado internacional costumam ter impacto direto sobre os preços internos.
O Banco Central indicou que o cenário pode ser marcado por oscilações na inflação, com uma desaceleração inicial seguida por novas pressões de alta ligadas principalmente ao custo da energia.
A decisão de política monetária acarretou um dia de perdas nos mercados japoneses. O TOPIX, indicador mais amplo da bolsa japonesa, caiu cerca de 3%, para 3.609,40 pontos.
No mercado de renda fixa, o rendimento do título do governo japonês de 10 anos, considerado referência no país, subiu 4,5 pontos-base, chegando a 2,26%.
Já o índice Nikkei 225, que reúne grandes empresas listadas em Tóquio, recuou 3,4%, encerrando o pregão em 53.372,53 pontos.
Entre as empresas, ações ligadas ao setor de semicondutores e inteligência artificial tiveram forte impacto sobre o desempenho do índice. Todos os 33 subíndices setoriais da Bolsa de Valores de Tóquio fecharam em queda.
A Advantest caiu 4,6%, enquanto a Tokyo Electron recuou 2,4%. Já o SoftBank Group encerrou o pregão com baixa de 5,1%.
No mercado cambial, a moeda japonesa continuou pressionada frente ao dólar — o par USD/JPY avançou 0,1%, para 159,67, após ter atingido 159,905 na sessão anterior, no nível mais fraco da moeda japonesa desde julho de 2024.
A desvalorização da moeda ocorre em um contexto de juros ainda baixos no Japão em comparação com outras economias desenvolvidas.
Para Saisuke Sakai, economista sênior da Mizuho Research & Technologies, o comportamento do iene pode se tornar um fator determinante para os próximos passos do Banco do Japão.
“Se os mercados perceberem que o Banco do Japão está relutante em aumentar as taxas de juros, a desvalorização do iene poderá se intensificar, tornando a evolução do mercado cambial um fator crucial para determinar o momento do próximo aumento da taxa.”
Outro fator que contribuiu para a queda das bolsas foi a cautela dos investidores antes de um feriado prolongado no Japão e da reunião entre a primeira-ministra Sanae Takaichi e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo Shoichi Arisawa, gerente geral do departamento de pesquisa de investimentos da IwaiCosmo Securities, os investidores optaram por reduzir exposição ao risco, enquanto avaliavam os riscos da guerra no Oriente Médio.
Apesar da decisão majoritária pela manutenção da taxa, houve discordâncias entre os membros da diretoria.
O diretor Hajime Takata voltou a defender a elevação da taxa para 1%, repetindo uma proposta apresentada anteriormente em janeiro que não obteve apoio suficiente. Para ele, o Japão já registrou inflação em torno de 2% de forma sustentada.
Outro integrante do conselho, Naoki Tamura, também divergiu da avaliação oficial do banco central. Enquanto a instituição projeta que a inflação alcançará 2% de maneira estável apenas a partir de outubro, Tamura argumentou que esse cenário pode ocorrer já em abril.
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