Por Luís Carlos Demartini*
Episódios recentes, como o caso do Banco Master, mostram a importância de observar sinais de risco antes de investir, mesmo em sistemas financeiros regulados. Crises raramente surgem de forma repentina. Na maioria das vezes, os problemas já estavam presentes, mas permaneceram ignorados por um longo período, até que se tornaram evidentes.
Rentabilidades muito acima da média costumam ser um dos primeiros sinais de alerta, pois, em condições normais, retornos mais elevados estão associados a maior risco. No caso analisado, a oferta de CDBs com taxas superiores às do mercado já indicava fragilidades, mas muitos investidores reduziram sua percepção de risco por causa da garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O mecanismo é essencial para evitar corridas bancárias, porém pode gerar falsa sensação de segurança ao diminuir o incentivo para avaliar a solidez da instituição. Com o tempo, a busca por rentabilidade tende a superar a prudência, e é nesse ambiente que surgem os excessos.
Crescimento acelerado, estratégias agressivas de captação, estruturas societárias complexas e falhas de governança também merecem atenção. Expansões muito rápidas, especialmente quando sustentadas por taxas fora do padrão do mercado, podem indicar fragilidades no modelo de negócios.
Crescimento não sustentável nem sempre é virtude e pode revelar problemas na instituição. Estruturas societárias pouco transparentes e práticas inadequadas por longos períodos costumam indicar falhas de controle ou de supervisão.
Diversificar aplicações, evitar concentrações excessivas e desconfiar de retornos elevados continuam sendo princípios básicos para a proteção do patrimônio. O seguro de depósitos é importante para a estabilidade do sistema, mas não substitui a análise da qualidade da instituição financeira.
O episódio recente não indica fragilidade generalizada do sistema bancário brasileiro, que possui arcabouço regulatório e supervisão relativamente robustos, mas reforça que mecanismos de proteção precisam estar acompanhados de regulação firme e supervisão ativa. Como em outras crises, episódios desse tipo costumam ser seguidos por ajustes nas regras.
Ao comentar a quebra do Credit Suisse em 2023, o banqueiro André Esteves resumiu como geralmente ocorre a quebra de um banco: “Primeiro lentamente, depois de repente. Houve vários sinais ao longo dos anos e, de repente, você não consegue mais sustentar essa situação”. A observação descreve bem a dinâmica de muitas crises bancárias, que se desenvolvem gradualmente e acabam se tornando insustentáveis. No caso do Banco Master, não foi diferente.
Para o investidor, a principal lição permanece: antes de buscar maior rentabilidade, é essencial entender o risco e conhecer a instituição. Na maioria das vezes, os sinais aparecem com antecedência e não devem ser ignorados, pois é justamente quando são desconsiderados que situações aparentemente controladas podem se tornar impossíveis de sustentar.
*Luís Carlos Demartini é gerente executivo na área financeira desde 2010, atuando em gerenciamento de riscos e planejamento de capital. Autor de Crises Financeiras e a Regulação Canguru: Por que só mudamos as regras depois do desastre?
O post OPINIÃO: O que o Banco Master nos ensinou sobre análise de risco apareceu primeiro em Monitor do Mercado.


