Por Leo Candido*
O número é assustador e não permite eufemismos: US$ 17 bilhões foram drenados do ecossistema cripto em 2025. Se você observar os dados que a Chainalysis acabou de publicar neste início de 2026, a primeira reação é culpar a Inteligência Artificial Generativa.
Mas, o fato é que a IA não inventou o crime. De um modo geral, a usamos para ser mais eficientes e inevitavelmente ela também tornou o crime industrial e assustadoramente eficiente.
Antigamente, para dar um golpe de milhões, você precisava de um hacker muito bom ou de um exército de golpistas fluentes em vários idiomas. Hoje, o criminoso só precisa de um “kit de fraude” de US$ 500 e a IA remove boa parte da dificuldade dos criminosos virtuais.
O crescimento de 1.400% nos golpes de personificação acontece principalmente porque os modelos de linguagem (os LLMs) resolveram o antigo dilema do golpista: como ser massivo e convincente ao mesmo tempo. Antes, ou o golpe era um e-mail (geralmente mal escrito) para milhões de pessoas, ou era uma abordagem manual e lenta para uma única vítima.
Agora, ferramentas como o que chamamos de “SpamGPT” conseguem analisar seu perfil nas redes sociais, entender o contexto da sua última viagem ou conferência e gerar uma mensagem hiper-contextualizada para você e mais dez mil pessoas simultaneamente. Não há mais erros de gramática ou sotaques estranhos.
A IA atua como um CRM do crime, mantendo conversas por meses em golpes de “Pig Butchering” (convencimento gradual da vítima a realizar aportes financeiros cada vez maiores, geralmente em criptomoedas) sem que o operador humano precise se esforçar para ser coerente.
Some isso a quebra da nossa confiança auditiva e visual. Com o vídeo e a voz sintetizados em milissegundos, o “ver para crer” morreu. O relatório cita casos onde videoconferências inteiras foram simuladas com deep fakes de executivos para autorizar transferências. O criminoso que antes queria apenas a sua senha agora fabrica as credenciais sociais que os sistemas humanos atuais aceitam como verdade.
O fato é que o caminho para vencer essa guerra não é proibir o uso de IA. Isso é impossível e contraproducente. O caminho, a meu ver, é ter soluções tão sofisticadas quanto o ataque, onde eu destaco três frentes:
Já que a IA consegue clonar sua face e sua voz (o que você “é”) um caminho é focar na biometria comportamental. Sistemas modernos já conseguem detectar a “hesitação cognitiva”. Se você está sendo coagido a fazer uma transferência, o modo como você move o mouse ou digita no celular muda sutilmente.
A defesa precisa focar na intenção e no contexto da sessão, algo que a IA ofensiva ainda não consegue mascarar. Somado a isso, as carteiras digitais podem obrigatoriamente “simular” a transação em um ambiente seguro antes de você clicar em “confirmar”, traduzindo o código para um aviso acessível e objetivo: “Atenção, este contrato pode(ou vai) esvaziar sua conta”.
Precisamos adotar uma cultura da “confiança zero”. Se um vídeo do seu líder ou uma ligação do seu banco parecer minimamente estranha, o protocolo deve ser desligar e retornar por um canal verificado.
No nível corporativo, o uso de assinaturas digitais invisíveis em mídias (como o protocolo C2PA) deve se tornar o padrão. Esse tipo de protocolo ainda tem vulnerabilidades, mas é um ótimo começo. Se uma imagem ou áudio não tiver esse “DNA de origem”, ele deve ser tratado como suspeito por padrão.
Em vez de tentar caçar cada golpista individualmente, um caminho interessante seria uma legislação que responsabilize as plataformas que vendem poder computacional e ferramentas de IA sem filtros de segurança básicos.
Se uma empresa facilita a venda de um kit de clonagem de voz sem verificar quem está comprando, por exemplo, ela está fornecendo a arma para o crime.
É claro que e IA Generativa é um vetor de aceleração. Ela tornou os maus mais rápidos, mas também deu aos bons ferramentas de análise de dados on-chain que seriam impossíveis para humanos. A batalha de 2026 não será contra a tecnologia, mas sim uma corrida de quem implementa uma arquitetura de confiança mais sólida primeiro.
*Leo Candido é AI-First Transformation Manager na Artefact LATAM (Consultoria global de dados e IA).
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